uma nova bolha para uma nova era
o disco de estreia de Victor Hugo
o Big Brother Brasil está de volta — e pelo andar da carruagem nessa primeira semana, essa edição tem tudo para ser a vigésima-sexta do programa. eu preciso ser sincera; esses dias, fumando um cigarro madrugada adentro enquanto caminhava com as mãos no bolso pela minha timeline do Twitter, me deparei com talvez a imagem mais assustadora de toda a internet — e olha que um colega de classe me mostrou as fotos dos Mamonas Assassinas mortos em uma aula de informática no quarto ano
três pessoas sorridentes, entre elas uma loira, olhando para a câmera em um fundo roxo. uma mulher, loira, estava sentada em um banquinho no meio do quadro, entre dois homens. me questionei quem seriam essas pessoas estranhas, porque sorriam tanto, o motivo daquela mulher ter dentes aterrorizantemente brancos, até que entrei nos comentários e entendi. era o pódio do Big Brother Brasil 25. olhei desesperada para o celular, apaguei o cigarro em minha própria coxa e decidi fazer outra coisa. eu não lembro direito o que, mas eu acho que eu acendi outro cigarro
o Big Brother Brasil 25 não existiu — Vitória Strada? a moça de Espelho da Vida, par romântico do homem do Porta dos Fundos que tem uma casa chiquérrima? ela jamais participaria de uma edição do Big Brother. era só o que me faltava.
na primeira semana do BBB26, já rolou de tudo; pessoas entraram na casa, participaram de provas e votaram umas nas outras em um lugar chamado “confessionário” para enviar um outro participante ao paredão, onde o público decidiu quem seria eliminado. basicamente, uma completa loucura. noite passada, eu sonhei que uma participante inexistente chamada Keila Maria havia — infelizmente — falecido no sexto dia de quarto branco, e a Rede Globo, apavorada com a repercussão, tentava esconder a notícia em todos os seus portais. era uma nota oficial no Instagram e dez vídeos do curitibano Pedro sendo agredido fisicamente pelo elenco da casa. talvez as imagens foram produzidas por algum tipo de inteligência artificial; não tem como dizer. hoje em dia, com o avanço da tecnologia, é impossível ter qualquer tipo de certeza na vida
e agora, finalmente, depois de vinte e seis anos, a direção do programa decidiu colocar ex-participantes do Big Brother na casa mais vigiada do Brasil — se você ignorar o BBB10 e o BBB13, em que exatamente a mesma coisa aconteceu. sinceramente, uma ótima seleção de ex-BBBs; Ana Paula Renault voltou mais uma vez para ser protagonista, o público atual do Big Brother é jovem demais para lembrar que Alberto Cowboy era o homem mais odiado do Brasil e Babu Santana não precisava disso — e por isso que é lindo vê-lo novamente em uma prova do anjo. e a Sarah Andrade? bem, ela está lá dentro. mas mesmo com toda essa abundância de ex-BBBs icônicos passando mais alguns meses trancafiados em uma jaula, sinto que poderia ter muito mais. peguemos só o BBB20; depois do sucesso de Casa Kalimann, porque não trazer a Rafa de volta? e a Boca Rosa? eu tenho certeza que ela não está fazendo nada de importante no momento. espera um pouco. eu acabei de pensar em uma coisa. por onde anda o Victor Hugo?
a mente por trás do smash hit A Bolha. não adianta fugir; todo mundo é um pouco Victor Hugo. em meus piores momentos, em uma interação social desnecessariamente estranha, em uma conversa de mesa de bar com pessoas que eu não tenho tanta afinidade, em um “feliz aniversário” seguido de uma “obrigada, pra você também”, eu sou um pouco Victor Hugo
é como se ele tivesse criado um novo arquétipo bigbrotherano; nunca houve um Victor Hugo antes e, talvez, se bobear, quem sabe, jamais exista um outro Victor Hugo. é uma mistura muito especial e levemente paradoxal de coitadice e confiança que só se vê no seu colega de classe que mostra um meme da South America Memes em um Moto G3 de tela trincada. e tá tudo bem, e você sabe o motivo de estar tudo bem? porque todo mundo tem isso dentro de si. você pode pensar que não, mas um dia você vai acordar e perceber que foi Victor Hugo na noite passada. é inevitável.
infelizmente, Victor Hugo passou pela experiência mais aterrorizante que alguém pode passar: todo mundo descobriu, em cadeia nacional, ao vivo, com 7.238 câmeras espalhadas pela casa, o seu defeito. você sabe do que eu estou falando; aquele defeito que toda pessoa possui e é muito aparente para todos ao seu redor, menos para você. na esmagadora maioria dos casos, evidente até para quem conversa com você uma só vez. “ah”, as pessoas dizem. “ok. eu entendi qual é o defeito dela. espero que vá embora em breve.”. o seu defeito é o suficiente para alguém nunca mais querer conversar com você, e o pior de tudo? você provavelmente jamais descobrirá, de fato, qual é o seu defeito. amigos não te falariam esse tipo de coisa; eles podem até perceber, mas lhe avisar do seu defeito seria de uma indelicadeza absurda. que tipo de monstro faria isso?
todas as vezes em que Victor Hugo tentava se enturmar com os demais participantes no Big Brother Brasil 20, todo mundo imediatamente percebia o seu defeito. o Brasil percebia o seu defeito. e é muito complicado viver desse jeito
intitulada Umbilical, a faixa de abertura de Cronocinese, primeiro disco de Victor Hugo, começa com um violão acústico e a letra você pode zombar de mim. espera, eu preciso voltar um pouco. no dia 4 de novembro de 2025, após meses de espera, Victor Hugo desovou nas plataformas digitais o seu primeiro álbum solo. pensemos, por um instante, em tudo que já passamos nessa vida e no que nos trouxe até esse momento. de acordo com a estimada Superpoderes Wiki, a cronocinese é “o poder de controlar livremente o fluxo do tempo” — ou seja, ao contrário do que eu imaginava, isso não é um conceito da psicanálise ou algo mais interessante. é literalmente só o negócio do Doutor Estranho.
ao longo de suas oito faixas — tal qual Remain in Light e Marquee Moon —, Cronocinese faz uma viagem entre todos os piores gêneros, estilos e tendências da música popular brasileira da última década. tente pensar em uma música muito ruim, e talvez seu cérebro imediatamente comece a tocar O Sol, de Vitor Kley. Cronocinese parece um disco do Vitor Kley. existe a possibilidade da sua rádio mental estar sintonizada em Era uma Vez, de Kell Smith, e eu peço encarecidamente que você fique tranquilo. Cronocinese, de algum modo, parece um disco de Kell Smith. Trem Bala? é óbvio que isso é Trem Bala. a possibilidade de isso não ser Trem Bala era quase nula. é um disco do Victor Hugo. pensemos melhor em nossas expectativas
e ao mesmo tempo, tudo em Cronocinese parece uma música da Disney. e eu levaria isso ao extremo; Umbilical, com sua produção cheia de brilhinhos e uma progressão de acordes deliberadamente épica, parece uma canção de amor que Aladdin cantaria para aquele gênio azul — eu nunca assisti o filme, mas acho que a história é mais ou menos desse jeito. “seu coração é samba-enredo”? obrigada, Victor Hugo. eu não estava ciente dessa informação. eu ainda achava que o meu coração era um músculo involuntário que pulsava por você
é meio Lin-Manuel Miranda-core. eu sei que é difícil e que é complicado imaginar isso, mas Victor Hugo assistiu Hamilton e adorou — supostamente. ou quem sabe, julgando pela terrível faixa MarAmor, ele assistiu Kubanacan e adorou. com sua capitalização insana, MarAmor é literalmente uma música do Melim sem a mulher cantora do Melim — cujo sobrenome eu tenho certeza que não é Melim. jamais seria. eu vou pro mar, amor, canta Victor Hugo acompanhado do violão acústico mais irritante possível. é música de vídeo de receita do Buzzfeed
e o pior de tudo? o cantor Victor Hugo não canta tão mal assim. ele é competente. tudo bem, eu tenho uma alta tolerância com vozes não-convencionais — afinal, eu sou fã dos últimos discos do Brian Wilson — mas eu sinto que isso poderia ser muito pior. a voz de Victor Hugo não me machuca. seus ad-libs oh, oh, VH em Amnésia não poderiam ser cantados por qualquer outra pessoa. até porque o nome da grande maioria das pessoas não é Victor Hugo
a única canção com mais de 1000 plays no Spotify — até o momento — é Sexo É Bom. um título provocativo, tal qual Victor Hugo. basicamente, Sexo É Bom é uma música do Cazuza se ele fosse assexual. sexo é bom, tem quem faça / não é meu esquema, amor / vamos pular essa parte. um verdadeiro hino ace, e a melhor parte? Victor Hugo literalmente diz a palavra ace em diversos pontos da música. sim, essa, especificamente, é a melhor parte. as outras partes nós evitamos falar sobre
Cronocinese é o seguinte; o Victor Hugo queria muito fazer um disco, e ele fez. ele compôs as músicas. ele chamou pessoas que tocavam os instrumentos necessários para a produção de todas as faixas. ele alugou um estúdio. ele gravou as músicas. ele chamou pessoas que mixavam e masterizavam. talvez o único erro que Victor Hugo cometeu, em todo esse processo, foi lançar o disco.






essa é a primeira vez em que eu leio um texto e concordo com todas as frases
fui escutar MarAmor pra rir, e tava engraçado até a hora q eu percebi que a música é uma ode ao Maranhão. VH é maranhense, eu também sou maranhense e de alguma forma eu virei vitima de xenofobia quando escutei o adlib 'Comer juçara até umas horas'. Victor Hugo vc me paga