a eliminação
neymardependência emocional
mas fiquem tranquilos, pessoal. daqui a quatro anos, infelizmente, tem mais. a eliminação da seleção brasileira pelo covarde Erling Haaland, ocorrida em uma ensolarada tarde em Nova Jersey, é apenas mais um tenebroso capítulo da história recente do escrete canarinho em Copas do Mundo.
Copa do Mundo. esse torneio grandioso que, em algum momento, significou algo para o povo brasileiro e hoje em dia, existe apenas para nos lembrar, quadrienalmente, de que não adianta nunca ter esperanças. a esperança é a morte da alma. destrói tudo que existe de mais bonito dentro de você, te faz acreditar em uma utopia, em um mundo melhor, em um mar de rosas até a hora do derradeiro choque de realidade. 220 volts diretamente na sua cara. o que aconteceu ontem em Nova Jersey, aquela ensolarada tarde, com o sol iluminando aquele período do dia entre a manhã e a noite, em uma cidade do lado de Nova York, foi uma partida de futebol.
torcer para o Brasil em uma Copa do Mundo, aparentemente, se tornou isso. isso aí que vocês estão vendo. um lento mas constante processo de apequenamento, parecido com o ocorrido no último século com a seleção do Uruguai, que hoje em dia recorre a um Darwin Nuñez para trazer o êxtase do gol ao seu sofrido torcedor. quando precisamos de Bruno Guimarães, ele cobrou um pênalti terrível. quando precisamos de Endrick, com todo o potencial nele depositado, ele chutou para fora. quando precisamos de Danilo, eu não acredito que chegamos ao ponto de precisar de Danilo
quantas vezes uma fatalidade precisa acontecer para se tornar o novo normal? hoje em dia, eu penso no 7 a 1 e me dá até uma sensação gostosa. caramba, foi em uma semifinal. a gente chegou lá. a derrota para a Bélgica em 2018 foi por um triz, a derrota para a Croácia em 2022 foi por um triz e a derrota para a Noruega em 2026 foi por um triz. aposto que, se analisar a ridícula estatística de expected goals, a seleção brasileira deveria ter participado ao menos de mais duas seminfinais e uma disputada partida de quartas-de-final contra a badalada equipe da Inglaterra no Hard Rock Stadium, em Miami. a questão é que imaginar isso, hoje em dia, é só um sonho. ver o Brasil perdendo uma final contra a França seria lindo, mas a nossa realidade é perder de um time de segundo escalão da Europa porque, aparentemente, times europeus dão medo. estejam preparados para uma deprimente eliminação nos 16-avos de final para uma forte seleção da Tchéquia em 2030
dessa vez, eu nem sequer consegui ficar triste. esse sentimento, abundante em anteriores eliminações, foi substituído pela raiva — sinceramente, uma emoção muito mais nobre. há menos coitadismo envolvido. coitadismo esse que talvez seja o maior legado dessa geração de perdedores da seleção brasileira: Casemiro, Marquinhos, Alisson e sua trupe podem até ter sido grandes jogadores por seus clubes, pilares de campeões da Champions League, mas com a camisa da seleção brasileira, eles parecem não se importar. eles choram em entrevistas pós-eliminação, falam sobre o quanto queriam trazer o tão sonhado hexa para esse povo tão sofrido, mas isso nunca transparece e nunca transpareceu nas atuações em campo. eu acredito que ganhar uma Copa do Mundo é algo que todos eles gostariam, mas não o suficiente, e ganhar uma Copa do Mundo não é algo que acontece naturalmente. na verdade, é uma equação muito simples: você só precisa querer ganhar mais do que o seu adversário
e onde entra Neymar nisso tudo? eu acho que nem ele sabe. ele não é necessariamente o culpado pela eliminação do Brasil, mas tudo em torno dele é. um gol pelo Al-Hilal, atuações patéticas contra Deportivo Recoleta, quase três anos sem atuar pela seleção — e isso entrando apenas na parte futebolística do negócio.
a seleção brasileira não tem mais aquela tão falada neymardependência dentro das quatro linhas, mas parece existir uma outra coisa mais profunda e nefasta. uma espécie de neymardependência emocional. a quantidade de vezes que atletas desse elenco disseram que queriam ganhar a Copa pelo Neymar é um negócio assombroso. é preciso ganhar a Copa do Mundo para realizar o sonho de Neymar, e não porque é a Copa do Mundo. jogadores diziam que a sua mera presença nos treinamentos já dava um ânimo, um novo gás para o time. ele era tratado como uma divindade. jogar ao lado de Neymar é uma honra, e ajudá-lo a colocar seu nome na história da seleção brasileira era a prioridade desse elenco. Neymar era o Papa. infalível e perfeito. Brasil acima de tudo, Neymar acima de todos
o termo neymarzismo cultural já foi muito utilizado em tweets engraçadinhos e curtos vídeos para redes sociais, mas nada exemplifica mais esse comportamento do que esse último mês da nossa seleção nos Estados Unidos. se você abrir o Instagram nesse exato momento e procurar comentários em posts da CazéTV, TNT Sports e derivados, descobrirá que, segundo seus fãs/seguidores (no sentido religioso da palavra), Neymar não teve um pingo de culpa pela eliminação do Brasil. Neymar não erra; quem errou foi Ancelotti ao não colocá-lo em campo desde o início da partida, quem errou foi Vinícius Jr. por não ter assumido o protagonismo na hora do pênalti batido, quem errou foram os colegas de equipe que não passaram a bola para Neymar, quem errou foi qualquer um menos Neymar. é literalmente um comportamento de seita, mas sem um Nike Decade nos pés. é como se Donald Trump fosse um atacante que passou pela base da Portuguesa Santista
olha para a situação da besta Erling Haaland — um capeta em forma de guri. fazer gols é tão fácil para essa criatura nórdica que ele consegue dedicar parte do seu tempo para gravar vlogs e, se bobear, até mesmo editar eles em uma cópia pirata do Adobe Premiere CC 2018. eu não duvidaria; tudo que ele precisa é entrar em campo que, automaticamente, marcará dois gols. ele nem precisa fazer nada. uma hora a bola vai chegar.
compare isso com a besta (no sentido idiota da palavra) Neymar; seu canal do YouTube consiste em branded content para marcas que o patrocinam e uma quantidade maior-do-que-a-recomendada de vídeos mostrando suas coleções de camisa, sua casa e (provavelmente) seus produtos do Batman. enquanto ele tem um Batmóvel cenográfico, Erling Haaland está nas quartas de final de uma Copa do Mundo. quem está mais feliz? bom, você tem um Batmóvel cenográfico?
algumas horas após a eliminação do Brasil, com uma esperança renovada no futuro da seleção brasileira sem a presença do ex-jogador em atividade, um aterrorizante pensamento surgiu em minha mente. e se um dia o Neymar voltar como técnico do Brasil?









Essa maldição final do texto me deixou apreensivo
A maldição do fim do texto foi terrível. Considero nunca mais ler um texto na minha vida