cinco dias com Laurinha Lero
e os lugares menos interessantes de Criciúma
de vez em quando a vida te pega. de vez em quando é um domingo de noite, um domingo chuvoso, um domingo de vitória do Criciúma, e você está simplesmente existindo. uma mente em pleno e completo funcionamento, não fossem os dois negronis já consumidos em dois estabelecimentos diferentes da avenida Santos Dumont — mas sinceramente, se tem uma coisa que não vem ao caso, no momento, é essa. você está olhando a chuva forte caindo no asfalto, de vez em quando um carro passa, de vez em quando um cachorro passa, de vez em quando ninguém passa. distraída. mas nesse momento, a vida parece te chamar de volta. você olha para o lado e pensa, silenciosamente, como os pensamentos normalmente são. “meu Deus do céu”, seu cérebro te diz. “a Laurinha Lero está no Dumon”.
durante cinco dias de uma semana que já passou, tive o prazer inenarrável — que narro aqui, agora, para vocês — de hospedar a escritora/blogueira/não-podcaster laurinha lero na cidade de Criciúma. vocês talvez já tenham ouvido falar desse lugar: 207km abaixo de Florianópolis, 285km acima de Porto Alegre, 67km em alguma direção de Sombrio. a equipe de futebol local foi campeã da Copa do Brasil de 1991, Susana Naspolini era natural do município e houve um assalto na região em algum ponto da história.
eu vou falar; em todas as vezes que pensei em chamar alguém para visitar essa cidade, sempre me deparava com uma mesma questão. Criciúma tem coisas para fazer? na minha imaginação — fértil, diga-se de passagem —, talvez existam coisas por aqui para entreter uma visitante da cidade grande por quem sabe dois dias. no terceiro dia, eu já me sentiria obrigada a levar tal visitante, não sei, no museu Augusto Casagrande ver pedaços de carvão jogados no chão de uma sala escura — ou seja lá o que exista no museu Augusto Casagrande. mas, acredite se quiser, foi possível preencher um belíssimo itinerário — talvez o melhor itinerário da história? — com opções incríveis de lazer, culinária e outras categorias tipicamente criciumenses
e a verdade, pura e sem filtros, é que Criciúma não recebia uma visita tão ilustre pelo menos desde maio de 2024, quando o ex-BBB Davi Brito esteve no supermercado MM Rosso, no bairro Quarta Linha, adquirindo 50 mil garrafas d’água para doar ao Rio Grande do Sul. é como se houvesse algo diferente no ar, algo misterioso, algo indecifrável, algo… carioca. ah, era a Laurinha. era isso. era isso que tinha de diferente. ela nunca esteve aqui antes. era exatamente isso. eba!
mas com tantas coisas incríveis e inacreditáveis para se fazer em Criciúma, me senti na obrigação de não fazer com que esse viagem fosse tão inesquecível. sinceramente, era importante levar Laurinha Lero em alguns lugares que talvez não fossem grande coisa. se você experiencia coisas boas demais em um curto espaço de tempo, tais coisas boas podem acabar se mesclando e você não consegue sentir, de fato, o quão perfeitas elas são. portanto, trago aqui, agora, neste exato momento, uma lista dos lugares mais chatos e menos interessantes que Laurinha Lero visitou em Criciúma. caso um dia você visite o sul catarinense, não deixe de perder estes locais
parque astronômico albert einstein e=mc²
em uma tarde absurdamente chuvosa de segunda-feira, pedimos um Uber do centro da cidade até o Parque Astronômico Albert Einstein E=mc². talvez a maior prova, a prova mais concreta e também a mais cabal de que Criciúma tem tudo que você precisa. eu não acredito que, durante a visita, eu demorei dias para lembrar da existência do Parque Astronômico Albert Einstein E=mc² e quase não levei Laurinha Lero para conhecer o espaço. eu juro; foi por um fio que essa visita não aconteceu. as forças divinas precisaram interceder e colocar à força em minha frágil cabeça que não existe uma visita à Criciúma sem uma visita ao Parque Astronômico Albert Einstein E=mc. seria como ir à Paris e não conhecer o Parque Astronômico Albert Einstein E=mc²
localizado no topo do Morro Cechinel, próximo à NSC TV Criciúma e ao Mirante Realdo Santos Guglielmi, o Parque Astronômico Albert Einstein E=mc² é uma obra espetacular. é importante para uma cidade do interior de Santa Catarina ter estátuas em tamanho real de Albert Einstein, Galileu Galilei e Isaac Newton logo ao lado de um planetário. pelo menos aqui eles não estão rejeitando a ciência. em outras cidades de Santa Catarina eu já não sei
tudo é muito magnífico. maquetes suspensas dos planetas do sistema solar, um relógio solar com uma placa implorando para não pisar em cima, mini estátuas de alienígenas. meu Deus. eles são muito pequenos, e considerando que o Parque Astronômico Albert Einstein E=mc² abriga apenas o melhor da ciência, isso significa que esses ETzinhos existem de verdade
eu imagino que, se eu fosse criança e a minha escola viesse a visitar o Parque Astronômico Albert Einstein E=mc², seria o melhor dia da minha vida. eu faria tantas perguntas sobre o espaço sideral, uma mais burra do que a outra, e voltaria para casa muito satisfeita. eu olharia uma estrela qualquer pelo telescópio e me sentiria bem com a vida. o planetário estava fechado no dia. mas tem como marcar visita toda semana. antes que perguntem, o mirante estava fechado. foi culpa da chuva
unesc
ah, a Universidade do Extremo Sul Catarinense. em qualquer outra situação, a ideia de levar uma pessoa da cidade grande para conhecer uma universidade qualquer seria levemente insana, mas calma; eu tinha os meus motivos. primeiramente, eu acho o campus da Unesc um dos lugares mais confortáveis de Criciúma. não existe lugar melhor na cidade para fumar um Marlboro vermelho e olhar pro horizonte enquanto sofre por motivos diversos — normalmente relacionado à mulheres. e ainda tem como pegar café de graça no bloco P, logo ao lado da copa, que é o que eu e Laurinha fizemos. é um campus arborizado, cheio de pracinhas e com pelo menos dez salas de aula. é impossível não gostar da Unesc. exceto se ela te lembra momentos muito complicados da sua vida
para uma máxima experiência Isabela Thomé, levei Laurinha para o praça do bloco Z e fumei um cigarro enquanto tomávamos tal café do bloco P. provavelmente um dos maiores eventos da história da humanidade. demos uma breve passada na Sala Edi Balod, o maior e melhor espaço criciumense de arte contemporânea, e no Espaço Toque de Arte, um dos espaços criciumenses de arte. sabe o que mais tem na Unesc? o Museu de Zoologia. eu sou a maior fã de animais mal-taxidermizados em Criciúma e região, então toda vez que eu entro naquele lugar eu me sinto como se estivesse em casa. e meio que eu amo o fato de ter um dinossauro por lá. eu vinha falando há tempos que Criciúma precisava de um dinossauro taxidermizado
estádio heriberto hülse
quer dizer, o estádio Heriberto Hülse é interessantíssimo. mas eu ainda estou amargurada que ficamos fora da Série A por um gol, então, como punição para essa equipe tenebrosa que decidiu nos dar esperança e depois triturar nossos corações, colocarei o estádio na lista. mas eu espero que ele não fique chateado com isso
monumento das etnias
dentre todos os parques não-arborizados da cidade, o meu favorito certamente é o Parque Altair Guidi — comumente chamado de Parque da Prefeitura, principalmente em épocas de eleição quando algum membro da família Guidi está concorrendo à prefeitura contra a administração atual. claro, existem pontos de interesse no Parque das Nações e naquele parque misterioso do Rio Maina, mas nenhum deles tem uma pista de skate muito radical. eu ainda não fui no novo parque da Santa Luzia, mas tenho certeza que vai ter pelo menos uma coisa interessante. quem sabe uma quadra de beach tennis? sinto que isso seria a cara da Santa Luzia
mas mais importante, o Parque da Prefeitura também é o berço do Monumento das Etnias, belíssima edificação construída em algum ponto dos anos 1970 que pode ser descrita como “umas coisas enormes que brotam do chão”. eu acho a coisa mais incrível do mundo; infelizmente, quase ninguém compartilha da minha opinião. há alguns anos, lembro de ver uma lista de monumentos bizarros de cidades brasileiras em algum Buzzfeed da vida que mencionava o Monumento das Etnias — o que é um completo absurdo. ele não é bizarro, eu o amo muito e é possível subir em cima dele. apesar de algumas placas avisando que, sim, é proibido subir no monumento
mundo dog
infelizmente, um problema de Criciúma que nunca foi uma grande questão nos vinte e nove anos em que existi nessa cidade mas imediatamente se tornou uma grande questão ao receber uma visita foi que não existem muitos lugares bons para almoçar no município. existem ótimos lugares para um bom jantar, mas almoço? eu nunca fui no Montalccino, então não sei dizer se ele é muito bom, e se eu preciso mesmo almoçar, por qualquer motivo a mim imposto, eu prefiro pegar uma salada pronta de 14 reais no Bistek. mas eu não faria isso com Laurinha Lero. portanto, durante os dias em que ela esteve aqui, os lugares onde almoçamos foram todos, no mínimo, curiosos
ah, desculpa. eu estou chamando-o pelo nome morto. o Mundo Dog recentemente passou por uma transição e agora se chama 1880 Brasa & Umi Restaurante — um nome muito mais chato que Mundo Dog, mas que ao menos descreve muito melhor o que ele de fato é. você pensa Mundo Dog e imediatamente te vem à cabeça o que? um simples e singelo espaço onde cachorros quentes são comercializados. nada além disso. mas a verdade sobre o finado Mundo Dog é que, em determinado ponto, eu estava sendo bombardeada com propagandas no Instagram me convidando para provar o buffet de sushi do Mundo Dog. te pergunto aqui; você comeria um buffet de sushi de um lugar chamado Mundo Dog? não precisa responder.
o 1880 Brasa & Umi Restaurante talvez seja o restaurante mais normal do mundo. tudo bem, o almoço deles tem peças de sushi ao lado de uma mesa de churrasco, mas existem coisas mais estranhas no mundo. se eu ficar me apegando a todos os detalhes insanos do mundo, eu nunca vou conseguir fazer nada.
o trem do parque das nações
e em um ambiente sem qualquer tipo de vegetação — algo desimportante em um espaço como um parque —, você precisa se distrair com outras coisas. e graças ao bom Deus, o Parque das Nações, localizado no bairro Próspera, oferece tudo que você precisa; um spin-off do Museu de Zoologia, caso suas necessidades taxidermológicas não tenham sido saciadas em uma visita à universidade local, um moderno Centro de Convivência da Terceira Idade, que possui uma pista de bocha state of the art, e um trenzinho. sim, um pequeno trem. você quer uma viagem de trem? em Criciúma, a melhor pedida é o Parque das Nações. em quesitos de trem, ao menos
tudo bem, não é como se fosse um trem de verdade — ou até mesmo um trem de mentira. a viagem de trem do Parque das Nações te dá um gostinho do Parque em sua quase-totalidade; você passa na frente do tigre gigantesco do Muzoo, você passa na frente das quadras de beach tennis, você passa na frente do ex-lago artificial recentemente soterrado por uma areia quem sabe artificial — eu não coloquei na boca, portanto não tenho como ter certeza da procedência. você passa por um túnel, e o túnel possui imagens enormes de diversos pássaros presentes na região sul do estado. você sai de uma faux-estação de trem, modelada a partir da primeira estação de trem de Criciúma, e chega nela mais uma vez em cerca de seis a sete minutos. é uma viagem lenta, é um trem lento. não tem muito o que fazer além de olhar para fora. e de certo modo, é igual um trem de verdade. a única diferença é que você não chega em lugar algum











eu nunca vi você e a laurinha no mesmo lugar, você quer contar alguma coisa pra gente..?
Bom que só agregou mais coisas na minha lista para visitar se um dia for a Criciúma. Antes, além de assistir uma partida do Tigre de local, eu só tinha o restaurante Cantinho da Vovó e o shopping que abriga a varanda que Isa queria comprar.