eu destruirei vocês #148: sozinha no mundo
what am i... male or female?
eu fui introduzida ao trabalho de Ed Wood como toda criança dos anos 2000 era introduzida a coisas estranhas levemente fora do mainstream: pela revista Mundo Estranho. na verdade, eu não tenho 100% de certeza se a edição especial sobre ficção científica que me trouxe tantos conhecimentos novos sobre a franquia Alien e outros tipos de alienígenas fictícios era realmente dela ou da Super Interessante — mas no fundo, é tudo da mesma família. eu lembro de imagens: Bela Lugosi em um set de cemitério fajuto, com uma cruz feita de papelão e uma capa de Drácula comprada na Millium da Santa Bárbara — um completo absurdo para um filme de verdade, produzido por pessoas de verdade, e ao mesmo tempo devastadoramente inspirador
não que eu achasse isso na época, claro: eram tempos de cinismo. toda a depressão dos anos 1990 parecia ainda não ter cessado e vivíamos uma época de ironia extrema na sociedade. o Kibeloco fazia sucesso com vídeos de anões fazendo uma dança inspirada por alguma forma geométrica, e deveríamos rir desses anões. comunidades de orkut mostravam para o povo brasileiro, anos antes do advento do Twitter, que rir da desgraça alheia era o jeito correto de viver a vida. portanto, um filme ruim do Ed Wood sempre será apenas um filme ruim. ele era uma pessoa complicada de trabalhar, meio que não sabia gravar uma película e passou o final da vida produzindo filmes pornográficos no porão de casa. e o pior de tudo: ele se vestia de mulher
Plan 9 From Outer Space, sua obra mais famosa de Bela Lugosi em cemitério, nem é tão horrível assim. assistindo todos os episódios possíveis de Mystery Science Theater 3000, você descobre que boa parte dos filmes de terror dos anos 1950 eram tão ruins quanto — talvez com um pouco mais de dinheiro envolvido, uma produção mais avantajada mas não tão divertidos quanto, bem, um Bela Lugosi em cemitério. Ed Wood não era um diretor muito bom, e o mundo decidiu que ele seria motivo de chacota para toda a eternidade. é tipo quando a grande roleta do engajamento decide que o seu tweet inofensivo sobre um assunto aleatório sairá da sua bolha e chegará às pessoas mais normais do mundo. eu já vi gente postando uma foto de um baseado e sendo destruída por glorificar as drogas. um dia você fará um filme sobre se vestir de mulher e todo mundo decidirá que é o pior filme da história
e agora, uma pequena pausa para te fazer uma pergunta: você conhece a Filmicca?
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minha recomendação essa semana é meio transgênero: Tangerine, de 2015. dirigido por Sean Baker e gravado inteiramente em um iPhone 5S, o filme acompanha a saga de uma mulher trans recém-saída da prisão em busca do seu namorado. traições ocorrem, e a protagonista se chama Sin-Dee Rella. um clássico moderno que você assiste apenas na Filmicca!
claro, dá pra chamar Glen or Glenda de uma obra curiosa. você também pode decidir não fazer isso. Glen or Glenda, filme de 1953 dirigido e estrelado por Ed Wood, é uma obra absurdamente radical sobre um homem, uma mulher, uma pessoa que não se encaixa nos padrões. Glen, um homem cisgênero normal que contribui com a sociedade e trabalha em um escritório, possui um segredo: quando está sozinho no conforto de sua casa, ele veste roupas de mulher. um casaco angorá, uma saia longa, não está exatamente claro se ele usa calcinhas de cetim ou não. e se Glen or Glenda fosse qualquer outro filme de 1953, isso tudo seria mostrado ou em um tom de chacota ou em um tom de denúncia. um absurdo que acontece debaixo de nossos narizes e nós, cidadãos corretos, nada fazemos. mas não. Glen or Glenda é um filme compreensivo, de um modo que apenas um auto-cine-biografia sobre um assunto polêmico poderia ser
e infelizmente, a vida de pessoas trans meio que é um assunto polêmico — uma grande guerra cultural ao invés de simplesmente ser uma coisa que existe. nossa existência sempre foi discutida e pesquisada e polemizada e escrita sobre por pessoas que não são transgênero e narrada dramaticamente por Cid Moreira no Fantástico e debatida, e provavelmente será por muito mais tempo até a sua tia descobrir que ninguém vai fazer uma cirurgia de redesignação sexual à força no seu filho adolescente. ninguém está injetando perlutan no Enzo. Ed Wood é um gênio por conseguir fazer um semi-documentário travestido de exploitation film. qualquer outra pessoa faria uma obra sensacionalista, e não empática. era 1953. era literalmente ilegal um homem sair na rua vestido de mulher nos Estados Unidos
é uma experiência interessante assistir Glen or Glenda pela ótica atual, uma visão de 2024 do que é a transgeneridade e o que é um crossdresser e o que é esse universo em geral. durante todo o filme, Glen esconde das pessoas ao seu redor seu lado feminino. ele conhece uma mulher, Barbara, eles se apaixonam e decidem se casar. o grande dilema: Glen deve contar para Barbara antes do casamento sobre a existência de Glenda? sobre o seu lado mais escondido, mais acobertado, mais reprimido? não é uma narrativa complexa: há literalmente um narrador explicando ao público tudo que se sabia sobre estes tais transformistas — inclusive avisando, com todas as letras, que esses homens não são homossexuais. muitos deles, aliás, são casados com mulheres que os aceitam do jeito que são. alguns buscam tratamento psiquiátrico para resolver essa questão, mas a grande maioria sentirá esses impulsos para sempre. esses homens, homens como eu e você, apenas querem usar vestidos na rua sem serem incomodados. e o mundo não os permite isso
claro, 1953. chega a ser engraçado o quanto é enfatizado que esses homens não são homossexuais — os aspectos autobiográficos da obra são difíceis de esconder. e talvez por isso Glen or Glenda seja um filme tão efetivo, tão sentimental. é sobre um Ed Wood, e é sobre um ser humano. caso tivesse nascido 80 anos mais tarde, Ed Wood provavelmente seria uma lésbica T4T que webnamora uma mutual de Conselheiro Lafaiete/MG e dorme todas as noites em call no Discord depois de horas assistindo anime juntas — mas assim como o narrador do filme menciona mais de uma vez, a natureza comete erros. quando o avião foi inventado, pessoas disseram que isso era uma aberração da natureza. “ora, se Deus quisesse que voássemos, teria nos dado asas”. às vezes a gente só não entende o propósito das coisas
Glen or Glenda literalmente começa com o suicídio de uma mulher trans. uma pessoa que, por não poder viver em sociedade do modo que deseja, decide acabar com a própria vida. eu entendi que eu era trans quando tinha mais ou menos uns 16 anos — logo depois daquele período psicopata da adolescência em que você é um ser humano sem qualquer empatia e transbordando de raiva reprimida. acontece mais com meninos. mas no fundo, eu sempre soube que havia algo de diferente — inúmeros indícios desde a infância que foram se acumulando até um momento em que era impossível colocar em uma caixinha no canto do cérebro e ignorar. e o grande motivo dessa demora era a visão que a sociedade tinha de mulheres trans, de travestis, de transformistas. motivos de chacota, e tudo bem serem motivos de chacota, porque são travestis. se você colocasse um homem usando um vestido em uma sitcom, todo mundo riria. afinal, um homem usando um vestido é uma coisa engraçada. a sociedade te molda, desde o início da sua vida, a odiar qualquer desvio de gênero. qualquer afastamento da masculinidade dada a você por Deus é uma afronta. é um nojo. você quer fazer parte das castas mais baixas da sociedade? claro que não. continue sendo um homem e tudo vai se resolver
hoje as coisas são melhores, eu acho. também são piores em outros quesitos. hoje eu consigo conversar com outras pessoas trans na internet e entender que não estou sozinha no mundo — posso estar sozinha agora, neste momento, e podem ter outras pessoas como eu sozinhas, cada uma em seu canto, mas nós sabemos que existimos. é sempre complicado pensar nas pessoas trans do passado que não tiveram a oportunidade de ser trans. as pessoas fora dos padrões, as pessoas que pensavam em uma transição de gênero mas nunca fizeram nada por medo de repressões externas, as pessoas que nunca conseguiram superar a repressão interna. as pessoas que nunca aceitaram que a natureza comete erros
eu nem sei se o Ed Wood seria mesmo uma lésbica T4T de Tumblr. é impossível saber. mas talvez em outra época, em outra conjuntura, em outro universo, ela teria sido feliz
acho que é isso.












RIP Ed Wood, you would've loved "i saw the tv glow".
muito amor pra esse texto e pra vc isa 🩷🩷🩷