eu destruirei vocês #X58: computadores fazem arte
os anos 1980 de Brian Wilson
nos anos 1980, Brian Wilson não estava no topo de nada. era uma época estranha: mesmo com o mundo entranhado na década da cocaína, o que teoricamente era para ser o momento em que o cantor e compositor californiano realmente brilhasse, Brian estava em um longo processo terapêutico de recuperação exatamente para se livrar das drogas — o que no final funcionou, mesmo quase tendo custado a vida dele. é uma história complexa que já é conhecida para quem assistiu o filme Love & Mercy, onde o ator azul Paul Giamatti interpreta um psiquiatra controlador que ditatorialmente governa a vida de um ex-cantor de pop dos anos 1960. no Brasil, eles chamaram o filme de The Beach Boys: Uma História de Sucesso. é um título absurdamente horrível
mas pelo menos, durante esse período de terror em sua vida, Brian Wilson tinha um sintetizador. pessoas normais dirão que as maiores obras produzidas por Wilson em sua vida foram quando ele tinha acesso ao Wrecking Crew, grupo dos melhores músicos de Los Angeles que gravou os instrumentais de Pet Sounds e Smile. já eu acredito que o Brian Wilson verdadeiro, com todas as suas nuances e todas as suas qualidades e todos os seus defeitos, só surge quando há um sintetizador em sua frente. e de preferência, algum produzido pela Moog
nos anos 1980, Brian Wilson não estava no topo de nada. mas em sua frente, havia um sintetizador
being with the one you love _ 1989
as melhores músicas pop do mundo parecem milagres operados em 2 minutos e 30 segundos, e Being with the One You Love é uma dessas canções. enquanto os Michael Jackson e U2 da época insistiam em lançar singles com quatro minutos — e em muitos casos até mesmo cinco —, aqui é como se o Brian Wilson de 1964 nunca tivesse ido embora. é como se os últimos vinte anos de avanço em tecnologia e cultura tivessem existido apenas superficialmente. no fundo, nada mudou. a música, esse grande fenômeno da natureza, essa força da humanidade que muda tudo ao nosso redor, continua sendo sobre estar com quem você ama
e por isso Being with the One You Love é tão linda. como as melhores letras de Brian Wilson, ela é sobre um sentimento muito singelo demonstrado da maneira mais simples possível. o refrão? literalmente a frase estar com quem você ama sendo repetida algumas vezes. poxa, é sobre isso mesmo. adicione os drum rolls mais bonitos dos anos 1980 e você tem em mãos um clássico instantâneo. pena que ninguém mais sabe que é um clássico
i sleep alone _ 1989
talvez a canção mais gay já escrita por Brian Wilson — algo ao mesmo tempo surpreendente e totalmente esperado. I Sleep Alone é uma música relativamente misteriosa: pouco se sabe sobre o seu propósito, mas existem duas gravações dela disponíveis na internet. uma versão em estúdio e uma performance na National Academy of Songwriters no dia 8 de janeiro de 1989 em que Brian Wilson está muito bonito. não que isso importe. desculpa. eu vi ele de óculos e meu cérebro entrou em curto-circuito
eu não lembro de nenhuma outra música no songbook de Brian Wilson que tenha sido escrita do ponto de vista feminino, portanto ela ocupa um espaço único em sua discografia. I Sleep Alone é sobre ser uma amante: enquanto ele está com a esposa em casa, você dorme sozinha. você sonha sozinha. você faz planos sozinha. é muito difícil quando o seu homem não é seu, canta Brian em um falsete comparável aos seus melhores momentos do início dos anos 1970. I Sleep Alone é o mais próximo que Brian Wilson já chegou de compor uma música da Marília Mendonça
the spirit of rock ‘n roll _ 1986
parte das famosas sessões gravadas com Gary Usher ao longo de 1986, eu não tenho certeza se The Spirit of Rock ‘n Roll possui algum valor artístico para alguém que não é um fã obcecado de Brian Wilson. a canção passa uma vibe muito forte de algo produzido para um seriado da MTV dos anos 1980 que duraria uma temporada até ser forçado a sair do ar por causa de uma baixíssima audiência — pense em The New Monkees se não fosse The New Monkees, mas sim The New Beach Boys. pense, por que não, em Armação Ilimitada. o radical Kadu Moliterno cantaria isso em um episódio logo depois de beijar uma gata.
é o rock destilado para um novo público. é quase uma paródia, mas não é. o espírito do rock ‘n roll, convenhamos, não está presente em uma canção tão sanitizada quanto esta. o espírito do rock ‘n roll, no fundo, nem sequer existe. mas talvez Lou Reed estava mais próximo dele quando produziu The Original Wrapper no mesmo ano do que Brian Wilson quando escreveu isso. mas é impossível negar que The Spirit of Rock ‘n Roll é interessantíssima
rio grande _ 1988
mas bah, guri. apesar do título, Rio Grande não é necessariamente a canção mais bagual da carreira de Brian Wilson — se você apontasse uma arma em minha cabeça e mandasse eu escolher a mais gaudéria de todas, certamente seria a esquecida e ignorada Santa Ana Winds. e nada além disso
Rio Grande é uma grande anomalia na discografia de Brian Wilson devido ao fato de que é um canção com oito minutos de duração. se isso fosse rock progressivo, tudo certo. mas Rio Grande não é rock progressivo. Rio Grande é cinco músicas em uma só. é um conglomerado de canções. a cada minuto e meio, ela vira uma nova música. uma linha de montagem musical. tudo se encaixa, tudo faz sentido, tudo revela algo novo. é o futuro, era o passado e foi o presente. sinceramente, eu acho lindo quando uma estrutura é modular. transformar o ato de composição em um grande Jenga e colapsa-lo quando assim desejar. a criação e a destruição. Rio Grande muda as coisas
crack at your love _ 1985
em 1985, os Beach Boys operaram um pequeno milagre. munidos do produtor do Culture Club e as drum machines mais caras do mercado, a banda menos legal do mundo conseguiu criar um álbum genuinamente contemporâneo e completamente único em sua discografia. claro, na superfície ele parecia igual a absolutamente tudo que estava sendo produzido na época por um trilhão de bandas diferentes. mas só uma banda em um trilhão consegue ter um Brian Wilson, só uma banda em um trilhão consegue ter um Carl Wilson e só uma banda em um trilhão consegue ter um Mike Love. seja para o bem ou para o mal
Crack at Your Love é bizarramente simples — eu quero tentar o seu amor. ao mesmo tempo, é como se os sintetizadores e as harmonias da banda nessa faixa te puxassem forte pelo colarinho e te atirassem em um cama metafórica. Crack at Your Love é uma canção pop imponente. ela te envolve. é como se alguém tivesse construído todo o amor em volta de você. na ponte, um Brian Wilson que mal havia aparecido no disco até então surge cantando “lonely nights, lonely days”. um Al Jardine vem e volta. eu acredito que um Eugene Landy escreveu as letras. a perfeição não pode nunca existir
eu não sei se preciso falar sobre Male Ego, faixa bônus do disco, mas ela é relativamente perfeita. misógina? claro que sim. ingenuamente misógina, eu diria. uma misoginia tão intrínseca ao ser que ele nem percebe a misoginia.
se eu quisesse defender Male Ego, diria que é um produto de seu tempo. mas eu não tenho qualquer intenção de defendê-la. eu posso até escutar, mas defender eu não vou




isa, o filme Love and Mercy vale a pena ser assistido?
Existe algum documentário decente da banda - o da Disney eu sei que não rs. Se sim, por favor, me recomende. Um dos meus problemas com os Beach Boys é que eles são muitos e eu não associo vozes e rostos