eu destruirei vocês #X61: um propósito maior
nove discos do Prefab Sprout
infelizmente, eu sou brega. por mais que eu escute James Ferraro o dia inteiro, é impossível esquecer que, no fundo, eu tenho sentimentos — e esses sentimentos podem ser comuns, podem ser rasos e podem ser chatos. quando você cresce e vê o mundo de um novo jeito, você entende que pessoas estão há séculos sentindo as mesmas coisas que você. nada disso é novo. o Paddy McAloon estava escrevendo músicas sobre tudo isso aí quarenta anos atrás
Prefab Sprout é uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos. um grupo britânico de sophisti-pop com uma sensibilidade ímpar, uma produção impecável, basicamente um conjunto que se encontrou — e uma das coisas mais legais que você pode fazer na vida é se encontrar. ao todo, nove álbuns foram lançados durante a sua carreira. é uma boa quantidade. perfeita para escrever um pouquinho sobre cada um
Swoon (1984)
talvez Swoon possa ser descrito como um disco cru. em 1984, o jangle pop praticamente reinava nas prateleiras indie das lojas de discos — e não eram as prateleiras que eram indie, mas sim as lojas de discos. Aztec Camera havia acabado de lançar seu primeiro e melhor disco, R.E.M. já tinha sua Radio Free Europe, Morrissey já cantava dia e noite sobre o quão miserável sua existência era… e Paddy McAloon estava escrevendo canções pop sobre não jogar basquete. quer dizer, não era necessariamente sobre isso. aparentemente compositores andam escondendo subtexto em suas canções. isso me assusta
ao mesmo tempo em que álbuns subsequentes na carreira da banda seriam mais longe da proposta do grupo, é como se Swoon fosse um protótipo do que as coisas poderiam vir a ser um dia. a instrumentação não é tão elegante, as composições são meio cruas e as letras são mais crípticas do que o normal para o grupo — há muita beleza em um refrão que inicia com “oh no, don’t blame Mexico”, ao mesmo tempo que eu não entendo exatamente o que isso significa. espera um pouco, deixa eu ler a letra mais uma vez. ah, é um México metafórico. sempre é
Steve McQueen (1985)
comumente considerado a magnum opus do Prefab Sprout, talvez seja mesmo. dependendo de quem você é. Steve McQueen é um daqueles discos greatest hits que certas bandas possuem: pelo menos metade do álbum poderia aparecer em uma coletânea de seis discos da Som Livre intitulada Anos 80: A Década de Ouro. algumas músicas estariam no primeiro CD. ou ao menos mereceriam estar. é possível que eles acabem colocando um sucesso menor do Roupa Nova lá. o sophisti-pop brasileiro merece respeito
Steve McQueen parece ter um propósito maior. uma trilha sonora para um filme dos anos 1950 que nunca existiu — John Goodman em True Stories, Dennis Hopper em Blue Velvet, americana mesmo todo mundo aqui sendo um cidadão do distrito de County Durham, ao noroeste de Hartlepool e City of Sunderland. Steve McQueen é um alprazolam sonoro. você pode achar isso um ponto negativo, mas as notas inicias de Bonny provocam sensações parecidas com o pós de uma crise de ansiedade. quando o refrão em Desire As repete pela quarta vez, tudo já passou. você está deitado na cama e as coisas voltaram ao normal
From Langley Park to Memphis (1988)
todo mundo precisa de um disco pop. não um disco pop caprichado, planejado minuciosamente, um Pet Sounds de qualquer outra década — mas um disco pop praticamente gravado com uma arma apontada na sua cabeça. Phil Spector não esteve envolvido na produção de From Langley Park to Memphis. talvez o seu fantasma assombrava o estúdio durante as madrugadas, mas isso é improvável. ele ainda estava vivo na época. a única coisa o assombrando eram os erros do seu passado. hoje em dia, Paddy McAloon tem uma barba branca muito grande
é muito estranho escrever uma diss track contra a superficialidade das canções de Bruce Springsteen enquanto esse aí é o seu corte de cabelo, mas talvez nos anos 1980 as coisas funcionavam de um modo diferente. From Langley Park to Memphis é cheio de decisões estranhas: The King of Rock ‘n’ Roll é a música mais conhecida do Prefab Sprout e também a mais bobinha, com um refrão literalmente projetado para ser nonsense. hot dog, jumping frog, Albuquerque. se eu gravasse o melhor disco da minha vida e só fizesse sucesso alguns anos depois com isso, eu talvez cometeria seppuku. ou viveria feliz na minha mansão
de acordo com o Google Maps, a única maneira de ir de Langley Park, uma pequena vila em County Durham, até Memphis, no Tennessee, é por avião. eu já sabia disso. existe um oceano entre os dois continentes
Protest Songs (1989)
a cronologia de lançamento dos discos do Prefab Sprout é uma bagunça completa, e essa balbúrdia toda inicia aqui. Protest Songs foi gravado logo após o lançamento de Steve McQueen, ainda em 1985, mas infelizmente a entidade conhecida como gravadora decidiu que não era um disco pop o suficiente e os obrigou a engavetar o projeto. eu até entendo. não tem nenhuma música nesse álbum que fale sobre cachorro quente, sapo saltitante ou o estimado município de Albuquerque, Novo México
a CBS nem sequer promoveu Protest Songs — eles não quiseram nem gravar um videoclipe para o disco, e olha que nos anos 1980 eles gravavam videoclipe pra qualquer coisa. mas assim como From Langley Park to Memphis não é péssimo por ser um disco pop, Protest Songs não é maravilhoso apenas por ser um projeto menos comercial. é como se o lado B do Steve McQueen, meio cambaleante, tivesse sido clonado em um laboratório por um cientista misterioso e minimalista. The World Awake é uma canção linda. eu gosto de Tiffanys. o resto é, bem, um resto. não muito mais que isso
infelizmente não existe mais Twitter para eu resgatá-lo dos escombros, mas eu prometo que isso é real: após a final do Big Brother Brasil 18, a Globo postou em seu site os vídeos originais de inscrição dos três finalistas — ou melhor, quatro, já que está foi a edição em que Ana Clara e Ayrton Lima, filha e pai, chegaram vivos no último episódio. no vídeo de Ayrton, ele está no carro falando para uma câmera enquanto Life of Surprises toca no rádio. e foi nesse dia que eu passei a acreditar na existência de Deus
Jordan: The Comeback (1990)
sei lá, provavelmente o melhor disco da história. isso é a terceira ou quarta vez que estou escrevendo sobre ele nessa publicação e, inacreditavelmente, ainda tenho coisas novas para falar. não é culpa minha, é culpa do disco. quanto mais você escuta Jesse James Bolero, mais você se apaixona pelas letras. você nem lembrava que Scarlet Nights existia, mas num dia qualquer você percebe que o seu refrão é a coisa mais poderosa do mundo. o meu refrão também. o nosso
e essas nem são as melhores canções em Jordan: The Comeback. é quase o filler do disco. enquanto os anos 1990 estavam entrando em ação com sua deliciosa ironia e ódio à qualquer emoção humana genuína, Paddy McAloon estava ocupado escrevendo a trilha sonora para um mundo que já não existia. já fazia cinco anos que The Outfield havia lançado Your Love, e algumas letras eram meio questionáveis. eu não tenho tantos questionamentos quanto ao conteúdo em Jordan: The Comeback. eu acho que Deus está presente em algum dos 205 segundos de Doo-Wop in Harlem. não tem nenhum céu pra me segurar essa noite
faz assim: fecha os olhos, abre o Spotify e coloca Wild Horses no repeat. talvez você precise abrir o Spotify antes de fechar os olhos. não tem problema, e não importa a ordem. você sentirá as mesmas coisas de qualquer jeito
Andromeda Heights (1997)
modéstia a parte, eu também ficaria sete anos sem lançar um disco se eu fizesse um Jordan: The Comeback. mas eu nunca farei, então toda segunda-feira e toda quarta-feira tem newsletter. Andromeda Heights é um disco sem tempo. produzido totalmente alheio ao que acontece ao seu redor, com uma confiança — e uma certa negação da realidade — que apenas um compositor isolado do mundo com quase vinte anos de carreira poderia conceber. a faixa de abertura é um tributo aos Beatles, e a segunda canção do álbum chama-se A Prisoner of the Past. é com isso que estamos lidando
uma ode ao espaço sideral, satélites soviéticos, a palavra cosmonauta — e sim, óbvio que tem muito xilofone nisso aqui, porque não existe instrumento musical mais espacial que o xilofone. antes que você pergunte, tem saxofone. Andromeda Heights é sobre construir um futuro, seja lá qual futuro seja, e talvez esse futuro contenha um glockenspiel. talvez o seu nosso lar não seja aqui. na verdade, quanto mais eu penso, mais eu tenho certeza que não há mais espaços para serem preenchidos aqui. aparentemente existe uma avenida de estrelas por perto. segue reto toda vida
The Gunman and Other Stories (2001)
eventualmente, todo homem vira um caubóis. é da natureza masculina: assim que uma crise de meia-idade se inicia, antes mesmo de ser descoberta pelo portador de tal crise, um parasita se instala no cérebro do homem que o obriga a adquirir um chapéu de John Wayne e começar a fumar Marlboro — ou Camel, se você não quiser ser que nem todos os outros caubóis. que saco. eu não aguento mais. ninguém no velho oeste fuma Rothmans de melancia
eu quero te dar sonhos de caubói. claro, tem algo de muito engraçado em um disco country do Prefab Sprout, e por isso é tão inacreditável que The Gunman and Other Stories seja tão bom. talvez seja a produção, que faz eu me sentir como se estivesse morando no set de The Adventures of Brisco County, Jr. — e o personagem do Bruce Campbell está prestes a encontrar algo estranho no deserto. metáforas de amor com jogos de cartas, milharais pegando fogo, um gato de fazenda — esse homem tem um sítio e ninguém vai tirar isso dele.
I’m A Troubled Man é praticamente uma confissão. “sim”, diz Paddy McAloon. “eu comprei uma coleção de edições antigas do Tex”. nos agradecimentos especiais, um obrigado a Kit Carson
Let's Change the World with Music (2009)
o mundo continua igual. Let's Change the World with Music foi lançado em setembro de 2009 na mesma semana das reedições em CD da discografia dos Beatles, o que significa que todo mundo estava ocupado demais escutando Ticket to Ride mais uma vez para adquirir algo tão… oitentista. na verdade, noventista.
Let's Change the World with Music foi gravado quase em sua totalidade no início dos anos 1990, e ficou guardado em um cofre na casa de Paddy McAloon todos esses anos. existe uma infinidade de projetos da banda com destinos similares, mas não falaremos deles hoje. nessa mesma época, ele escreveu um disco chamado Billy Midnight. entre 1996 e 1997, trabalhou em algo chamado The Atomic Hymnbook. alguns anos depois, comentou em uma entrevista sobre um disco chamado Elegy For A Ramraider. não existe quase nenhuma informação sobre qualquer um deles
sabe quando o U2 decidiu do nada que queria incluir elementos eletrônicos em suas músicas, inventando assim os anos 1990? é um pouco isso. estranho pensar que esse disco foi projetado para ser o sucesso de Jordan: The Comeback, já que a sensação é que jogaram fora todas as coisas maravilhosas daquela obra para criar algo meio… chato. talvez você ache Jordan: The Comeback meio chato. o chato é relativo. talvez o que você precise é uma batida repetitiva com uma letra genérica. não posso reclamar. várias músicas que eu amo podem ser descritas assim
Crimson/Red (2013)
parece que eu tenho uma atração a grupos musicais frustrantes. Crimson/Red, lançado em 2013, é um dos melhores discos do Prefab Sprout: é a discografia deles batida no liquidificador sem a adição de água. uma melodia mais magnífica que a outra. o storytelling de Paddy McAloon nunca esteve tão afiado, mais abstrato do que quaisquer obras que o precedem. faz sentido. tem um Rothko na capa
Billy ganha um trompete, Danny Galway escreve canções e há algo tão singelo no título grief built the Taj Mahal que talvez eu morra aqui mesmo, agora, nesse exato momento. eu sempre tento pensar onde eu estava em 2013 quando escuto esse álbum, e a sensação sempre é a mesma: eu queria conhecer ele nessa época. o terceirão é uma fase complicada na vida de qualquer garoto-que-em-breve-será-garota, mas talvez se eu tivesse escutado List of Impossible Things obsessivamente as coisas teriam sido mais fáceis. eu acho que 17 anos é a idade correta para assistir Twin Peaks.
mas por que Crimson/Red é frustrante? porque eu tenho certeza que o Paddy McAloon tem a capacidade de produzir um álbum desses por ano, mas não quer. não que eu não entenda ele, por favor. eu também odeio trabalhar
eu possuo uma ligação muito forte com I Trawl the Megahertz. é o disco favorito do meu inimigo mortal. a pessoa que eu mais odeio no mundo. eu não gosto de descobrir esse tipo de coisa. às vezes é como se olhar em um espelho. tem uma rachadura




isa, esse foi seu texto que eu mais demorei pra ler até hoje porque eu entendi que ia precisar ouvir tudo enquanto lia. Aproveitei o momento "os na academia" pra isso e gostaria de dizer que agora vou ouvir a discografia inteira* do Prefab Sprout, uma banda que até então minha atenção só se voltava pro nome parecer o do Pokémon Bellsprout.
Sobre o que eu ouvi...All The World Loves Lovers parece muito a discografia solo do Yukihiro Takahashi. Andromeda Heights parece a trilha do Mario Galaxy sem orquestra e achei I Never play basketball chique.
Não sei sobre crises de meia idade serem sobre cowboys. Meu pai ficava ouvindo Lady Gaga e Beyoncé na dele.
*Talvez o disco de cowboy eu demore um pouco mais porque esses ipiaeh ipiyaoh foram os que menos levei a sério e mais ri na vida, mais que os da música de cowboy do NSYNC.