quando o paraíso é brutal
o novo disco da cantora loira Luísa Sonza
20 de setembro de 2023. em homenagem ao Dia do Gaúcho, data comemorativa em alusão ao início da Revolução Farroupilha em 1835, Luísa Sonza é convidada para tomar um café da manhã com Ana Maria Braga em sua revista eletrônica matinal, o Mais Você. na mesa, um tradicional café colonial: cucas, cueca virada e todas as outras comidas que existem em um café colonial. provavelmente tipos diferentes de queijos e um bolo de cenoura com chocolate. alguns cafés coloniais que eu já visitei são um pouco menos puristas em suas formulações: coxinhas de frango, salgadinhos de palmito, empadinhas de costela. Ana Maria Braga é menos experimental. um café com leite é mais que o suficiente. nada muito decolonial. feliz Dia do Gaúcho, Luísa Sonza. precisamos falar sobre negócios
20 de setembro de 2023 foi, sem sombra de dúvidas, a maior performance da carreira de Luísa Sonza. durante aquela entrevista de quase uma hora, a cantora loira atravessou todos os momentos mais importantes da sua vida até então: falou sobre a infância e adolescência cantando em bandas da cidade natal, fez reflexões sobre a depressão enquanto eram exibidos no GC do programa os dizeres “Luísa Sonza faz reflexões sobre a depressão“ e destrinchou as letras do seu então-recém lançado disco Escândalo Íntimo. o álbum, uma suposta “viagem ao subconsciente” da artista, lhe rendeu indicações ao Grammy e — como explicou — o maior show da sua carreira até então, no prestigiado e prestigioso festival The Town, na mesma noite de Bruno Mars, Bebe Rexha e Alok. ah, é verdade. ela também leu uma carta expondo a traição do ex-namorado
naquele dia, Luísa Sonza realizou o sonho de toda escritora de Substack: ela teve a oportunidade de declamar, em rede nacional, um girl essay escrito no aplicativo de anotações do iPhone sobre a sua situationship. ao longo daqueles dolorosos quatro minutos, a cantora afirmou ter sido traída pelo então namorado Chico Moedas, conhecido por ser uma espécie de Louro José do streamer Casimiro Miguel, em um “banheiro sujo de bar” — como se, caso o banheiro estivesse limpo, a situação fosse menos pior. Luísa Sonza falou sobre traumas geracionais, disse que Chico havia “mexido com a mulher errada“ e, assim como Ana Maria Braga, chorou. existe um tipo de sororidade entre mulheres loiras que é eterno. um elo inquebrável. ao final do texto, Ana Maria Braga afirmou que, caso os telespectadores tivessem qualquer pergunta, poderiam fazê-la diretamente a Chico Moedas. tem momentos que ficam para sempre
o relacionamento de Luísa Sonza e Chico Moedas, em todos os seus altos e baixos, do semblante desconfortável que ele demonstrava em toda performance ao vivo de Chico até o fato d’ela ter escrito uma música sobre ele chamada Chico, é talvez o grande acontecimento da cultura pop brasileira dos anos 2020. claro, uma parte importante disso é o fato de Luísa Sonza e Chico Moedas terem sido um casal, mas de vez em quando eu me vejo pensando nessa relação e alguns detalhes voltam à minha mente e tudo consegue, de algum modo, ficar ainda mais insano. ninguém se lembra disso, mas Luísa se interessou por esse homem de bigode e sotaque carioca após assistir um corte de uma entrevista dele em um podcast do Tinder apresentado pela igualmente carioca Valentina Bandeira — e talvez nunca tenha existido uma frase mais 2022 do que essa. talvez se o Diogo Defante estivesse junto
naquele momento, por bem ou por mal, o Brasil inteiro falava sobre Luísa Sonza. hoje, três anos depois, um mês após o lançamento de seu novo disco Brutal Paraíso, nenhuma música do álbum sequer está no top 50 nacional do Spotify. ninguém fala sobre Brutal Paraíso, ninguém pensa sobre Brutal Paraíso. Luísa Sonza era tudo, e hoje não passa de alguma coisa. o que aconteceu?
próxima vez que a gente conversar, eu pergunto pra ela. a grande mola propulsora de Brutal Paraíso, em toda a magnitude numérica das suas 23 faixas e 67 minutos de duração, é a confusão. é impossível decifrar, apenas escutando a sua obra, qual tipo de artista Luísa Sonza quer ser. talvez seja uma visão genérica de “artista“ como “pessoa que possui referências“, o que a faz gravar um irritante disco de bossa nova com participações de Toquinho — porque Luísa Sonza provavelmente cantou Aquarela em uma apresentação da segunda série e, portanto, reconhece Toquinho como um nome da música brasileira. ele é um artista que existe, e a sua presença passa seriedade, e Luísa Sonza precisa de seriedade. ou ao menos sente que precisa de seriedade: a sensação é que a loira apenas quer ser vista como artista sem pensar muito no que necessariamente é ser artista. tudo bem, eu entendo: pensar sempre é a parte mais chata de ser artista
e a esquizofrenia de Brutal Paraíso é evidente logo quando você observa os títulos das faixas. em um minuto, você está escutando Santa Maculada; alguns minutos depois, simplesmente Safada. O Som da Despedida apenas algumas canções de distância de Tu Gata e Tropical Paradise, porque Luísa Sonza é poliglota e pluricultural. dá pra dizer, caso você queira, que Brutal Paraíso nem sequer é um disco de verdade; ele é quatro EPs em um sobretudo fingindo ser um adulto. com algumas simples cirurgias de baixo risco, é possível extrair do álbum um simpático EP de canções inspiradas pela sua atual fase bossa nova artista séria — “Fruto do Tempo“ não é horrível e “Amor, que pena!“, com suas vírgulas e pontos de exclamação, é como se fosse uma Chico 2 sem a presença ilustre de Demi Lovato. seis pessoas escreveram essa música de dois minutos e cinquenta e quatro segundos, mas não tem problema; você já tentou reunir seis pessoas em um mesmo lugar? é mais difícil do que parece.
não que essas faixas sejam uma grande coisa, mas ao menos elas não são esteticamente ofensivas. em outro dos quatro EPs inexistentes que montam o álbum, Luísa Sonza canta um deprimente reggaeton misturado com funk — e de vez em quando, é em espanhol. Tu Gata possui um feat. com Sebastian Yatra, e eu não sei quem é Sebastian Yatra. No Es Lo Mio contém a palavra borrachita para descrever o estado de embriaguez da loira; pelo amor de Deus. as partes mais pop do disco, caso de Loira Gelada, são complicadíssimas; a produção meio The Weeknd já era completamente datada quando a Anitta lançou Boys Don’t Cry, e isso aconteceu há quatro anos. Telefone, a música mais ouvida do álbum, com 12 milhões de streams no Spotify, tem um minuto e meio; ela começa e imediatamente acaba sem deixar vestígios. triste pensar que eu sinto falta de um mundo de Campo de Morango
chega a ser assustador o tanto que Brutal Paraíso é esquecível. mesmo com quase duas dúzias de faixas, nada realmente te prende; tudo é passageiro e tudo vai embora assim que some da sua frente. um disco que causa a perda da permanência de objeto no ouvinte, e nada ilustra melhor essa invisibilidade do que as últimas sete faixas, nas quais Luísa Sonza parece querer emular o estilo da cantora loira estadunidense Taylor Swift. o mero conceito de uma música de oito minutos da Luísa Sonza já é o suficiente para causar calafrios em qualquer pessoa com ouvidos, e quando você percebe que ela apenas quer fazer a sua própria All Too Well (10 Minute Version), tudo fica pior. Brutal Paraíso, a música, é uma canção autobiográfica sobre o início da sua carreira e sem qualquer insight mais interessante — o grande ápice é quando Luísa Sonza canta, emocionadamente, “meu Deus que cidade grande, com certeza tenho uma chance, que chique a escada rolante”. caramba. primeiro que se ela fosse caipira de verdade, teria se impressionado muito mais com um chafariz de hipermercado
se Brutal Paraíso fosse completamente terrível e sem nenhuma qualidade auditiva, ele ao menos seria interessante. mas do jeito que as coisas estão, ele comete o pior pecado que um álbum pode cometer: ser chato. não há nada com potencial para hit, nada minimamente memorável, nada que te faça lembrar que um dia ele passou pelos seus ouvidos. Brutal Paraíso não traz nada de novo para os fãs de Luísa Sonza, mas pior ainda é o fato dele não trazer nada de novo para os seus haters. hoje em dia, o pessoal se diverte mais falando mal da Jojo Toddynho








no prestigiado E prestigioso festival the town
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