bula
para que este medicamento é indicado?
para que este medicamento é indicado?
esses dias eu estava caminhando na rua, caminhando como normalmente faço, caminhando para um lugar, lugar esse que normalmente não vou, e pensei em alguma coisa que não tinha nada a ver com a rua, com o lugar e com o que eu normalmente faço. uma vez eu saí daqui, 2:55h, tomando cuidado para não passar pelos corredores às 3h da manhã, horário do capeta, e não voltei para onde eu estava até as 4h da manhã chegarem e algumas pessoas, mas não muitas, estiverem também caminhando para um lugar provavelmente diferente do meu. mentira, 4:05h; eu preciso levar em conta que nem sempre o horário do meu celular é o horário correto, e talvez se eu tivesse entrado em algum lugar exatamente 4h, na verdade seria 3:59h e eu estivesse aberta e me abrindo para qualquer influência maligna que paire pelo ar nesse intervalo de uma hora durante a madrugada. tem gente que fala que esse é o horário em que os anjos passam para recolher as orações, e portanto esse seria o melhor horário para orar. eu acredito muito mais nos números do que nos crentes; existe sim algo nefasto em um 3:33h. uma sequência de algarismos maléfica, exatamente a metade de 666, e eu creio na Bíblia Sagrada quando me é conveniente; sim, 666 é o número do diabo. faz sentido ser o número do diabo. é muito fácil ser convencida de que um número assim esconde um significado maligno, que simbolize tudo de ruim no mundo. se qualquer escritura tivesse dito, sei lá, que 529 é o número do diabo, eu não acreditaria. acharia uma besteira, como já acho sobre muitos aspectos religiosos. 777 é o número dos anjos? faz sentido. pega o número do diabo e coloca um pra frente. 555 é o número de alguma coisa?
O número 555 tem suas raízes em várias tradições culturais e espirituais. Na numerologia, cada número carrega uma vibração específica, e o 555 é frequentemente associado a transformações e novos começos. A repetição do número 5 amplifica sua energia, sugerindo que mudanças significativas estão a caminho.
impossível ser algo ruim.
como este medicamento funciona?
então, como eu ia falando. eu saí e eu voltei. e é aquilo, de vez em quando eu só saio. faz bem sair de vez em quando. mas eu não gosto de passar pelo corredor, principalmente de madrugada. existem corredores e corredores. ao longo de todos os meus anos passando por corredores, quase três décadas de experiência, eu ainda não consegui entender o que me faz odiar um corredor e o que me faz gostar de um corredor. eu odeio os corredores do lugar onde eu estou neste exato momento; uma parsa iluminação, duas lâmpadas em todo o andar, eu preciso caminhar até o interruptor para acender a luz e seguir o caminho. e é tudo muito aberto, são várias portas, mas tem um espaço grande demais. há algo nisso que me enerva. há algo nisso que me faz pensar que, a qualquer momento, alguém pode estar me observando e vendo tudo que eu faço por uma fresta misteriosa que ainda não conheço. e isso me faz não querer sair tanto. eu já vivi em corredores que eu não tinha problema algum de passar. corredores que não me abalavam. eu preciso abrir três portas, e cada porta é uma parada, e cada parada é um momento de tensão, e cada momento de tensão me lembra de algo novo. me lembra de algo antigo. me lembra de todas as vezes em que eu abri cada uma dessas portas. provavelmente é mais perto de 777 do que 666, e certamente mais perto de 777 do que 555.
quando não devo usar este medicamento?
mas voltando pro assunto, eu estava caminhando. tem uma música do bob dylan, bob dylan velho, uma outra entidade completamente distinta do bob dylan novo e até mesmo do bob dylan de meia idade, que começa assim; i’m walking. perfeito. sem considerações. eu estou caminhando. desculpa, não; eu estava caminhando. doente de amor, sem procurar remédio na vida noturna, tem uma performance de love sick facilmente disponível no youtube, grammy’s 1998, acho que larry campbell e bucky baxter na guitarra, não tenho certeza, na qual um performance artist chamado michael portnoy sobe no palco sem camisa e com as palavras SOY BOMB escritas no peito, mas não é uma bomba de soja, é que ele era uma bomba, soy una bomba, e eu fico me questionando e pensando que em outros tempos isso seria o suficiente para evacuar um auditório inteiro e encerrar uma transmissão, mas não tinha acontecido nada nos estados unidos em um 11 de setembro ainda. só no chile.
o que devo sabe antes de usar esse medicamento?
e quando eu comecei a caminhar, né, assim, vieram algumas coisas na minha cabeça. que nem eu mencionei mais cedo. e o corredor, né? corredor. muitos significados. no mínimo dois. sempre que eu penso em um corredor, eu penso primeiro em alguém correndo. quando eu saio de casa 2:55h, não tem ninguém correndo na rua, e sinceramente, se eu visse alguém correndo na rua nesse horário, talvez ficaria levemente preocupada. dependendo do estilo de corrida. se fosse uma corrida leve, uma corrida de atleta, tudo certo; se fosse uma corrida desesperada, eu tentaria manter a calma e não conseguiria. é aquilo. tem que pensar que qualquer coisa pode acontecer de madrugada. já latiram pra mim na rua de madrugada. um completo absurdo. quem faz isso aqui sou eu. e o dylan nem sequer estava doente de amor, se for analisar; ele estava cansado de amor. de saco cheio do amor. e aí, ele caminha. ele vai pra algum lugar porque tá de saco cheio. eu entendo. quando chega um ponto em que eu só fico de saco cheio, eu caminho. eu ainda não consegui olhar profundamente pra mim e entender se isso é uma fuga, se é uma alteração no cérebro que diz que eu preciso sair de lá, mas sinceramente, eu tento não pensar tanto assim sobre isso nesses termos. levo questões mais urgentes pra análise e tenho medo de estar sendo analisada errado. análises são subjetivas, claro, mas eu já reprovei em um teste de visão uma vez. eu já errei. não consigo ler as placas que estão longe demais. eu errei um tempo atrás e até hoje sofro as consequências do meu erro. dos meus atos, um pouco menos. mas os erros persistem
onde, como e por quanto tempo posso guardar este medicamento?
mas é aquilo, a pessoa vai sentindo umas coisas diferentes e aí ela não sabe o que fazer direito. e é melhor começar a caminhar logo, porque tem umas coisas que duram quilômetros. essa cidade tem um problema, um problema meio grave, um problema meio engraçado e um problema meio sinistro; uma praça que abre só ás 5h da manhã. quando é 5h da manhã, o sol ainda distante, na calada da noite, eu consigo ver algumas pessoas correndo e eu nunca sei o que pensar direito delas. por um lado, ótimo; parabéns. você tem a força de vontade de acordar esse horário e sair correndo por aí, provavelmente cronometrando seus tempos e escutando uma música do coldplay no fone de ouvido, e uma música do coldplay atual. um céu cheio de estrelas. completos psicopatas. eu não consigo imaginar uma pessoa mentalmente sã, sem problemas psicológicos graves, fazendo isso. se você está correndo 5h da manhã, você está correndo de alguma coisa. eu tenho vontade de parar cada atleta amador com o celular grudado no bíceps e perguntar, sinceramente, o que lhe aflige. quer conversar? eu sei que não tá tudo certo. vamos falar sobre isso? talvez eu tenha algumas experiências parecidas, talvez eu possa te ajudar com algo, eu não sei tanto assim sobre a vida mas vai que alguma coisa eu sei. não precisa deixar tudo dentro de si. eu lido com essas coisas de outros jeitos, mas acho que temos algo em comum. eu estou na rua às 5h da manhã mesmo.
como devo usar este medicamento?
e quando eu desci as escadas, lá estava eu, descendo as escadas. eu nem lembro mais que horário era; poderia ser qualquer horário de qualquer dia de qualquer mês e, sinceramente, pensando agora, eu acho que era isso mesmo. não era nenhum dia específico, não era em nenhum momento, não era em lugar nenhum — exceto nas escadas — e não era. eu olho pro meu relógio de pulso e é óbvio que eu não tenho um relógio de pulso, só que faltava mesmo… um relógio de pulso. mas eu não saí com o meu celular também. eu não sairia com o meu celular na rua nesse horário. qual horário? ainda não descobri. tentando descobrir. e eu fui descendo, eu fui descendo uma escada, e fui descendo outra, quer dizer, as mesmas escadas mas vinha um degrau atrás do outro, um degrau e aí continuava em outro degrau, uma sucessão de degraus. e eu fui descendo, né? não tinha mais nada pra fazer. as luzes se apagam e acendem e a única coisa que dá pra fazer é continuar nesse trajeto, nesses degraus, e eu vou me questionando se é degraus, degrais, qualquer outra coisa, qualquer outra palavra, qualquer outro degrau, ok. eu desci um andar. incrível. não esperava que isso fosse acontecer. mentira, óbvio que esperava. é assim que uma escada funciona. é assim que você interage com uma escada. se você precisar do apoio de uma escada, de um corredor, de um corredor escuro, de um corredor escuro iluminado pelos postes da rua, se você precisar disso tudo e de mais um pouco, mas não muito, saiba que é assim que funciona. você já sabia que era assim que funcionava? tenta pensar quando foi a primeira vez que você pensou. pense no funcionamento, se desligue de qualquer outra coisa. eu não sei mais se é noite ou dia, e eu sinto que nunca soube. isso é um problema.
o que devo fazer quando eu me esquecer de usar este medicamento?
e aí eu penso na fase cristã do bob dylan. quando eu comecei a caminhar, caminhar pra onde eu estava indo, eu lembrei que nem estava indo. e aí eu começo a pensar em outras coisas, outros momentos, momentos que já passaram, momentos que não voltam mais, momentos que não voltam mais não importa o que aconteça, momentos que — assim, vamos falar sério. de vez em quando, você se converte ao cristianismo. você encontra a luz, você acende a luz, a luz acende algo em você, você é iluminado, eu te conheço, eu vejo, eu vejo a tua iluminação. conhece alguma outra do led zeppelin além de stairway to heaven? e você é batizado. e você passa anos tocando apenas canções cristãs nos seus shows, e todo mundo que comprou ingressos está furioso, e você canta sobre como Deus, em letra maiúscula, deu nome a todos os animais, e o zé ramalho, em letra minúscula, chega e faz uma versão em português da sua música e ninguém fica furioso, todo mundo entende, jesus é bom, esse homem jamais teria um pacto com o capeta ou o diabo e jamais compraria uma casa número 666. minha nação é cristã, e eu canto sobre Deus. tem um trem, e o trem está vindo, e o trem vem lento, mas daqui a pouco ele chega na estação. e eu estou com dificuldades pra abrir a porta. e se a chave cair nesse momento, calma, deixa eu explicar, o cadeado fica do lado de fora, e se a chave cair nesse momento, escorregar da minha mão, ir pra longe, eu estou presa aqui até 8h da manhã, quando alguém abrir a porta, bom dia, os atendimentos começam em breve. e eu gravo três discos sobre Deus, falo dos grãos de areia, falo de tudo que engloba tudo, falo sobre a sensação única de estar salvo!, bem assim, com exclamação e vírgula. e eu volto, como se nada tivesse acontecido, e eu escrevo sobre um cantor de blues
quais os males que este medicamento pode me causar?
a chave não caiu, eu acho, pelo menos, pelo menos eu estou por aqui ainda. e eu comecei a caminhar, mas um caminhar lento. um caminhar a passos lentos. os passos lentos, e eu lentamente, e eu quase parando, estou quase parando, não vou parar, não, eu estou caminhando, mas estou quase parando, mas não precisa se preocupar, eu estou caminhando. tem um caminho que eu conheço. eu nunca levei ninguém lá, nem quem é importante na minha vida sabe desse caminho, eu propositalmente escondo esse caminho, e dependendo do horário, principalmente se eu não souber o horário, eu não estou de celular, eu sigo esse caminho. esse. uma vez eu segui por tempo demais e me perdi. tudo certo. eu vi um ponto no horizonte que não me era estranho, ponto esse que apareceu só no vento, quando o vento colocou uma árvore pro lado e eu pude olhar e eu pude ver e eu pude encontrar. mas era longe. eu via aquele ponto e eu olhava e eu quase fechava os olhos pra tentar ver com uma nitidez melhor, ver se eu entendia o que o ponto mostrava, mas ele era só um ponto e um ponto não mostra nada. mas assim, eu sabia que eu já não tinha pra onde ir e, na falta de um ponto pra seguir, eu segui esse ponto. eu não lembro de ter visto outro ponto, mas pensando agora e olhando agora, eu sinceramente acredito que eu só não procurei outro ponto. decidi, quase que arbitrariamente, que esse era o ponto, e se tem um ponto aqui… ótimo. não preciso de outro ponto. e se o ponto não me era estranho, perfeito.
o que fazer de alguém usar uma quantidade maior do que a indicada deste medicamento?
e aí eu fui caminhando.
Backrooms (bra: Backrooms: Um Não-Lugar) é um filme norte-americano de 2026 de ficção científica e terror, dirigido por Kane Parsons e escrito por Will Soodik. A obra é baseada na websérie de Parsons e inspirada na creepypasta “The Backrooms”. O elenco é estrelado por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell.



