uma casa com um patrão
o novo reality show de Boninho
José Bonifácio Brasil de Oliveira, filho de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, é uma figura singular na história da televisão brasileira. conhecido pelo grande público como Boninho, o segundo Boni mais famoso do Brasil foi, por muito tempo, uma espécie de Boni 2 na Rede Globo de Televisão.
se o Boni original praticamente nos deu a Globo que dominou o país por décadas, seu primogênito fez questão de impor o próprio estilo a um número cada vez maior de horários e segmentos na emissora. se anteriormente as suas ideias malucas estavam confinadas à um ou dois reality shows — e à um reality show de sucesso —, na última década, a sua nefasta influência tomou conta de boa parte da grade. querendo ou não, e eu tenho certeza que a Globo preferiria que isso não fosse o caso, a Globo de 2026 tem a cara e o focinho de Boninho.
ele criou o É De Casa e colocou a esposa Ana Furtado para apresentar, e o É De Casa segue no ar até hoje. ele removeu Otaviano Costa do Vídeo Show e o obrigou a apresentar um game show onde idosos tunados competiam com jovens ridículos para mostrar que a experiência era muito melhor que qualquer outra coisa que exista em uma pessoa jovem. ele esteve intimamente envolvido com o Estrelas, TV Xuxa e Encontro com Fátima Bernardes e encabeçou alguns dos projetos mais inacreditáveis da história da emissora; Casa Kalimann, desovado no Globoplay em meados de 2021, é um talk show / programa de variedades quase lynchiano, cuja intenção parecia ser causar níveis estratosféricos de constrangimento em todos os envolvidos na produção, mas principalmente no telespectador. um Nathan For You acidental com um cenário que, ocasionalmente, ficava de cabeça para baixo.
Zig Zag Arena, o último suspiro de Fernanda Gentil na Vênus platinada, sabe-se lá como, era ainda mais insano: uma grande e esquizofrênica e televisionada gincana de escola, com Everaldo Marques na narração e Marco Luque na função de bobo da corte. vinte e cinco minutos de pega-pega em um cenário meio Waluigi Pinball nas suas tardes de domingo. é isso ou nada
no final de 2024, o ship Globo/Boninho chegou ao fim. tudo bem; poucas coisas sobrevivem a um Estrela da Casa. desde então, Son of Boni vem fazendo algo que pode ser descrito como uma turnê de despedida por todas os canais de televisão do país — considerando que as chances dele renovar o contrato com qualquer uma das emissoras que gastou rios e mares de dinheiro em sua contratação são quase nulas.
você sabia que, agora, o The Voice Brasil está sendo exibido no SBT? o apresentador é Tiago Leifert, uma das treinadoras é Duda Beat e se eu estiver mentindo, ninguém tem como saber. curiosidades: Ana Furtado é a apresentadora de uma nova versão da Fábrica de Casamentos, produzida por seu marido. enquanto isso, o Boni em miniatura encabeçava um incrível e inovador projeto de reality show para o SBT, chamado até então de A Casa do Patrão — afinal, SBT e patrão tem tudo a ver. talvez por ter lido a sinopse do programa antes de colocá-lo no ar, a emissora de Patrícia Abravanel desistiu da ideia. enquanto isso, na surdina, a Record, conhecida pelos seus reality shows de sucesso que duram mais de uma temporada, decidiu apostar todas as fichas no nome Boninho — em uma jogada similar à década de 2010, quando trouxe Xuxa e Gugu para a sua grade a preço de ouro. e como todos sabem, deu tudo certo e nada de ruim aconteceu
A Casa do Patrão, reality show co-produzido pela Record e Disney+, estreou no dia 27 de abril de 2026 prometendo alguma coisa — infelizmente, é impossível saber ao certo o que. na coletiva de lançamento do programa, ocorrida na mesma semana da final do Big Brother Brasil que consagrou Samira Sagr (e ninguém mais), Boni Pequeno foi perguntado sobre a pressão que ele estaria sob após uma temporada de grande sucesso do programa que ele esteve no comando por décadas. a sua reação? perguntar de volta para a repórter se, realmente, de fato, a edição havia bombado.
basicamente, essa é a vingança de Boninho; ele precisa mostrar para o Brasil que é maior do que a Globo e que o seu toque de Midas transforma qualquer produção capenga em um fenômeno de Ibope, simplesmente por ter o seu nome à ela atrelado. em sua cabeça, o telespectador não assistia o Big Brother Brasil porque era o reality show da Globo; o povo assistia porque era o reality show do Boninho. um evidente caso de fuga da realidade, claro, mas se você é filho do Boni e teve carta branca para fazer o que quisesse na emissora do pai por anos e anos, a realidade tende mesmo a fugir. caso eu fosse a realidade, eu faria de tudo para não estar nessa situação
A Casa do Patrão funciona do seguinte modo: ao contrário do Big Brother Brasil, que tem uma casa, aqui existem três casas. se precisarem, eu posso ir mais devagar. toda semana, há uma dinâmica para decidir quem será o patrão dos próximos sete dias — termo que Leandro Hassum, o apresentador do programa, se referiu uma ou duas vezes como o líder da semana antes de rapidamente se corrigir. o patrão, obviamente, vive n’A Casa do Patrão; ele pode chamar um determinado número de pessoas para ficar com ele em tal casa e, ao mesmo tempo, indica outras pessoas para A Casa do Trampo.
cada participante desta casa fica encarregado de uma tarefa específica durante a semana; alguns preparam a comida, alguns fazem a faxina da Casa do Patrão, outra pessoa limpa o banheiro. a qualquer momento, o patrão pode chamar os seus funcionários para executar tarefas básicas que precisem ser feitas. ele liga para A Casa do Trampo e pede um misto quente, ou que seus subordinados passem uma vassoura nos quartos. quem está na Casa do Patrão não pode fazer nada; se você decidir fazer um misto quente por conta própria, o Boninho te dá uma bronca. o próprio programa lhe imputa uma inutilidade. você será servido e não há nada que você possa fazer sobre isso
todas essas dinâmicas acabam criando um programa que, por vezes, é meio desconfortável de se assistir. o patrão da semana sempre parece pedir as tarefas para A Casa do Trampo como se estivesse pedindo desculpas; “eu não queria fazer isso, mas o programa me obriga”. conversando n’A Casa da Convivência, a terceira casa que meio que serve praticamente apenas para todos estarem juntos na hora do programa ao vivo, e dizendo que “o macarrão ficou meio sem sal” como se estivesse desviando de tomates. nada é, de fato, divertido. só é meio bad vibes
mas o mais assustador de tudo é o quanto A Casa do Patrão está sendo um fracasso. constantes derrotas para o SBT na audiência e uma repercussão próxima ao zero nas redes sociais para um reality show com muito dinheiro envolvido. os prêmios de provas aleatórias são, em muitos casos, maiores que os prêmios do Big Brother Brasil: o primeiro dia começou com 20 mil reais sendo despejados em um participante, como se o dinheiro fosse infinito e a escassez monetária jamais fosse existir. o prêmio final pode chegar a dois milhões de reais, e eles querem distribuir isso em um programa que chega a dar menos de dois pontos de audiência em dias de semana
será que os patrocinadores d’A Casa do Patrão estão felizes com o resultado? o PicPay investiu pesado no programa, a ponto de inventar uma dinâmica que os votos dos clientes PicPay valem o dobro, e se você abrir uma conta PJ pelo aplicativo, um simples voto pode valer três. o Assaí Atacadista comprou o mercadinho do programa, um espaço onde os participantes fazem as compras da semana e são obrigados a escutar uma propaganda da Embalixo a cada sete dias. nenhum outro reality show brasileiro possui branded content de saco de lixo, e é por isso que A Casa do Patrão é tão especial. e para quem sempre gosta de dizer que o problema das provas atuais do Big Brother Brasil são a presença constante de patrocinadores, fique tranquilo: não tem nenhum patrocinador nas provas d’A Casa do Patrão, e elas são tão ruins e desinteressantes quanto as provas dos últimos BBBs. parece até que Boninho estava envolvido nas duas produções
e em questão de elenco, talvez a parte mais importante de um reality show, A Casa do Patrão não entrega quase nada. nas duas semanas de programa que eu tive o prazer de acompanhar, eu não consegui criar uma mínima relação parassocial com nenhum habitante daquelas três casas.
Nikita, uma mineira que claramente tentava ser uma segunda Ana Paula Renault, saiu na segunda semana exatamente por ser uma cópia de Ana Paula Renault. Marcelo Skova, produtor de eventos paulista e primeiro eliminado, ganhou exatamente dois mil seguidores no Instagram durante a sua estadia e agora produz reels para cerca de 100 likes nas redes sociais.
ninguém na casa é bonito demais ou minimamente interessante; todos parecem ter sido produzidos em um laboratório subterrâneo da Record e, quem sabe um dia, consigam uma vaga atuando em Topíssima 2. talvez, considerando o fracasso do reality, é possível que algum dos participantes surja em um futuro BBB; já que ninguém está assistindo isso, eles poderiam facilmente ser confundidos com pipocas. nem precisaria gastar uma vaga com camarote
será que A Casa do Patrão seria melhor se o elenco fosse melhor? impossível dizer. e como as chances disso ter uma segunda temporada são quase nulas, é provável que jamais descobriremos. no momento, tudo que eu espero é que José Bonifácio Brasil de Oliveira continue sua peregrinação pelos quatro cantos da televisão brasileira. eu adoraria ver o que ele traria de novidades para a TV Aparecida









